A caminho de uma pecuária sustentável: o neem, uma planta que protege o rebanho


Os altos custos de insumos e num cenário econômico desafiador, a busca por tecnologias que possibilitem ganhos na produtividade e eficiência vem crescendo, no sentido de otimizar a gestão de custos, e na pecuária segue a mesma linha, na busca por opções que possibilitem a prevenção no que diz respeito as pragas. Dessa forma, produtos já utilizados em diversos países do mundo, mas com pouca visibilidade no Brasil, estão ganhando mercado, como o neem. Além de ser um mecanismo natural, os produtos derivados do neem, apresentam diversas propriedades medicinais, biocontroladoras, ação antisséptica, cicatrizante e imunoestimulante.

O empresário Carlos Motta, da DalNeem Brasil, empresa que produz fertilizante orgânico a base de neem, aponta que as principais vantagens da utilização do neem na pecuária em relação a outras plantas inseticidas são a atividade sistêmica, eficiência em baixas concentrações, baixa toxicidade a mamíferos e menor probabilidade de desenvolvimento de resistência pela ocorrência de um complexo de princípios ativos. “O extrato de neem causa a morte dos insetos por sua ação repelente, além de reduzir o consumo de alimentos retardando o desenvolvimento e impedindo a deposição de ovos pelos insetos adultos. Dessa forma, os produtos derivados do neem, como a Torta de Neem, vêm sendo amplamente utilizados no combate às pragas que infestam animais, como carrapatos, moscas-do-berne, pulgas, piolhos e mosquitos em geral”.

E mais, além do produto já ser utilizado em diversos países para o desenvolvimento de cosméticos e medicamentos, existe também uma gama bastante variada de produtos voltados para a linha pecuária, tais como pomadas cicatrizantes, aplicações para combater ecto e endoparasitos.

A Torta de Neem, especificamente, é largamente utilizada em bovinos, caprinos e alguns animais de pequeno porte, para o controle fitossanitário de ectoparasitas (exemplo carrapatos, bernes e mosca do chifre.). Há notícias de diversos pecuaristas que por meio do sal misturado a pequena quantidade de torta de neem, utilizam a torta na dieta do rebanho para controle de carrapatos e moscas do chifre, onde verificam não haver riscos ao animal e a quem faz a aplicação. Assim, a DalNeem Brasil batalha para apurar cada vez mais os testes na pecuária, bem como luta para que a legislação brasileira flexibilize registros de produtos fitossanitários e homeopática com indicação veterinária, de forma a serem feitos com mais rapidez e simplicidade, para que a exemplo do resto do mundo, o produtor brasileiro possa competir no mercado orgânico e no controle eficaz de pragas.

Diversas organizações internacionais como a GTZ da Alemanha têm promovido a pesquisa cultura e difusão do neem como uma forma de reduzir a utilização de inseticidas sintéticos na agricultura principalmente nos países do terceiro mundo, já que no primeiro mundo eles contam com mecanismos eficientes que coíbem a utilização desses produtos venenosos. O Conselho Nacional de Pesquisas (National Research Council) de Washington, USA, chamou o neem de “a árvore para resolver os problemas globais”. A FAO (Food and Agriculture Organization) aponta o neem como “uma das maiores dádivas para a humanidade”.

Mostrando a aplicabilidade
No caso do gado leiteiro a utilização de produtos químicos significa perda de produtividade, já que ao utilizar os medicamentos tradicionais, o leite destes animais fica um tempo inutilizável, o chamado tempo de carência. Com o uso do neem, isso não é necessário, pois ele é um remédio fitoterápico. Além disso, a utilização de produtos químicos torna-se caro e trabalhoso, uma vez que para driblar a resistência da praga muitas vezes é necessário alternar diferentes formulações. Pesquisas realizadas na Zona da Mata mineira apontam que quando da utilização dos métodos tradicionais, o resultado era a perda de 10% e 15% nos dois dias seguintes ao banho químico, devido à impossibilidade do uso do leite.

Em um levantamento nacional, o Ministério da Agricultura estimou em 1 bilhão de dólares anuais os prejuízos causados pelo carrapato bovino no país, sendo 40% desse total relativo a diminuição da produção leiteira. Constatou-se a presença do carrapato durante os doze meses do ano em 66% dos 2048 municípios investigados. De acordo com levantamento feito pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (SINDAN), o país gastou no período de um ano em 13,8 milhões de dólares na compra de carrapaticidas, representando 15% do total gasto com defensivos. Na Argentina, as perdas econômicas devidas ao carrapato bovino superam os 100 milhões de dólares anuais. No México, calculou-se as perdas anuais em 30 Kg de carne por animal/ano; e uma redução na produção de leite num valor estimado de 303,75 milhões de pesos mexicanos.

A pós-doutora em Química Orgânica e professora da Ufscar – Universidade Federal de São Carlos, Maria Fátima das Graças Fernandes, aponta que cerca de 400 espécies de insetos foram relatadas em pesquisas como sensíveis a algum tipo de ação do neem. “Além desse tipo de ação, o neem tem efeitos sobre outros organismos, como nematóides, fungos, vírus e protozoários”, diz, explicando que o produto, que atua como bioinseticida, se revela praticamente inócuo ao ambiente e ao homem, biodegradável e com baixa persistência no ambiente.

A presença constante num rebanho da Haematobia irritans (mosca-dos-chifres) podem levar a perdas de até 25% na produção de leite.

Outra pesquisa, coordenada pelo Instituto de Biologia da UFRJ mostrou redução da emergência de 95% das moscas das pupas tratadas com óleo de neem e de 94,5% quando aplicado ao solo onde os animais descansam à noite. O mesmo comprovou que, além do baixo custo, o neem tem reduzidíssimo risco de intoxicação para mamíferos e aves, ao contrário dos agrotóxicos.

Pesquisas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), mostraram que o neem é eficaz também contra o mosquito da dengue. O estudo revelou que mortalidade das larvas expostas por 24 horas ao concentrado feito a partir do neem foi de 100%.

“O neem pode se tornar um grande aliado do produtor, ajudando a reduzir custos e a tornar mais limpa a produção”, destaca o diretor da DalNeem Brasil, Carlos Motta.

Mecanismo de ação
Após a ingestão, o princípio ativo azadiractina passa a circular na corrente sanguínea dos animais e os parasitas que se alimentam do sangue passam a sofrer os efeitos negativos da planta. Em cinco dias, os carrapatos (Boophilus microplus), as larvas de berne (Dermatobia hominis) e a moscas-do-chifre (Hematobia irritans), por exemplo, morrem no corpo do animal. A azadiractina é ainda eliminada nas fezes dos animais, justamente onde as moscas colocam seus ovos.

E mais, o tratamento por meio de produtos naturais não é novidade. “No início do século passado, plantas medicinais eram as únicas opções para os fazendeiros no tratamento dos animais doentes”, relembra Motta.

Futuro
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), nos próximos cinco anos o Brasil será o maior produtor de carne bovina do mundo, superando os Estados Unidos, que atualmente ocupam o primeiro lugar no ranking. Segundo a entidade, o mercado nacional é responsável por 17% da produção total da carne bovina no planeta, e o norte-americano 19%. “Hoje, já somos os maiores exportadores do produto, mas podemos superar os EUA até 2020, no que diz respeito à atividade produtiva”, acredita Fernando Sampaio, diretor executivo da Abiec.

“O momento atual da economia brasileira é ideal para adoção de uma nova cultura. Com o uso de técnicas sustentáveis, que agreguem valor e rentabilidade ao produtor, por meio da adoção de práticas e produtos orgânicos, com insumos ecologicamente corretos, poderemos produzir mais, a um baixo custo, e com qualidade superior”, finaliza Carlos Motta.